A minha historia pessoal#

Eu nasci no interior. Sou filho único e os dois lados da minha familia provêm do campo. Meus pais foram crianças que cresceram no sítio, ou seja, foram crianças rurais. E se mudaram para a cidade quando casaram. Mas é importante frisar, por “cidade” quero dizer que sairam do sitio para viver na zona urbana de uma cidade de 6k habitantes. Dai que eles (nós) temos uma experiencia de cidade drasticamente diferente do que uma experiência urbana de cidades de 50, 100, 500 mil habitantes.

Entao, por um lado, eu nao vivi no sitio. Nao tirei leite, nao caminhei no barro para ir pra escola, nunca tive fogão de lenha em casa. Por outro, eu cresci com uma liberdade geografica quase irrestrita, eu estava no sitio com uma frequencia alta, eu convivi com crianças que tiveram essa vida dos meus pais. Eu ganhei o concurso de desenho no “Programa de Preservaçao das Microbacias Hidrograficas” e o premio era um quebra cabeça do Chico Bento :)

A partir de agora eu vou fazer juízos de valor dos quais eu nao necessariamente tenho uma experiencia completa. Mas sigamos.

A infância no interior é um estouro. Eu ia para a escola de manhã, voltada as 13h, e tinha uma abismal nada para fazer até a hora de jantar. E eu tinha que preencher isso com algo, o que é uma benção desde que voce tenha imaginação e coragem. E eu tinha as duas coisas. É gostos? demais. Tédio dificilmente me pega e eu acho são anticorpos desenvolvidos nessa epoca. Então eu lia, atuava no mundo como o “homem renascentista” que eu era (sic), sofria com o caos domestico do casamento dos meus pais, e era isso. Parece bom olhando em retrospecto, mas enquanto você está nessa, outras crianças estão fazendo inglês, judô, natação, futebol. E voce esta fazendo nada.

A adolescência no interior já é outro problema. Sim, adolescência é chato em qualquer lugar, mas no interior é pior. Como os grupos são pequenos e a variedadede de grupos é limitada, voce nao tem oportunidade de experimentar em diferentes grupos. E vira uma experiência sufocante, porque ou você se rende ao império do grupo (adolescentes sao animais gregários sempre) ou padece como “outsider” (o que pode ser a morte para um adolescente). E eu, claro, virei outsider.

No inicio da adolescencia eu decidi (com apoio do meu avô) a virar marceneiro do Senai. Era algo que fazia sentido pra mim. A experiencia durou quase um ano de curso, quando esfregaram grana na minha cara e eu deixei o curso. Com 15 anos eu comecei num função que já nao existe mais, que era a de office-boy. Eu fazia todo o trabalho de papelada num escritorio de Contabilidade, sozinho, num escritorio da cidade. Fui indicado por uma professora porque atendia aos criterios de pontualidade, responsabilidade e habilidades intelectuais. E fiquei nesse trabalho até os 18 anos.

Aos 18 anos, entre idas e vindas, eu decidi prestar vestibular. Foi numa época anterior ao Prouni, ou seja, se você nao podia pagar, era ir pra universidade pública ou nada. E eu comecei a estudar. Estudei sozinho, com apostilas usadas dos meus primos. Fiz dois vestibulares, não passei, mas passei num concurso público como escriturario. Trabalhei um ano na prefeitura, um emprego chatissimo e que me desesperou. No ano seguinte eu passei, pedi minhas contas e fui para São Paulo.

Em São Paulo eu passei por todos os desafios de sempre. Fui morar com mais gente, nao tinha grana pra nada, mas estava bom. A turma tinha mais a ver comigo parece, as coisas tinham mais perspectiva de melhora, parecia bom, e eu fui ficando. Comecei a estagiar no segundo semestre, e o que parecia empenho era só felicidade mesmo. Eu ganhava o mesmo salario que ganhava no interior pra ter muitissimo menos cobrança e fazer um trabalho que me fascinava.

Terminei a graduação, fui para o mestrado na sequencia. Meu curso infelizmente nao tinha muita perspectiva de mercado, eu ja tinha sacado, e fui para a Computação, que era uma paixão e aonde eu ja atuava. Dois anos de mestrado e sai da universiadade mais aliviado do que saudoso. Desde então, nao olhei para trás.

Engatei emprego num banco, depois em outro, namoro, amigos, vida em Sao Paulo, e em determinado momento as coisas começaram a me incomodar. Eu estava muito longe de onde tinha começado, havia uma pressão enorme para que eu me comprometesse com uma seria de acordos e relações numa perspectiva realmente assutadora. O que fazer? Pedi demissao, nao sem antes me organizar num projeto que parecia meio sem futuro, mas que deu muito certo e me garantiu minha primeira experiência de trabalho remoto. Era um mundo pre-pandemia, e ninguem entendia trabalho remoto naquela época. E eu que estava judiado de Sao Paulo ia poder morar aode escolhesse, talvez viajar.

E aconteceu um caso de doença na familia. E eu me dei conta que meus pais estavam idosos, e tudo estava abandonado no interior. No final, meu periodo de trabalho remoto foi “aplicado” num retorno ao interior pra segurar as pontas por lá. Foi um periodo engraçado porque eu precisei ensinar os meus pais e parentes no geral que eles nao sabiam mais viver no que o mundo se tornou. E eu era o unico que tinha a bussola e o mapa naquele momento. Tirei o barco da deriva e desembarquei todos em segurança.

Nesse ponto aquela posição remota já tinha maturado e o mundo tinha mudado. E voltei para Sao Paulo para uma nova proposta de trabalho, e querendo começar uma vida nova por lá. Os problemas nao tinha cessado, mas estavam controlados. E Sao Paulo era o lugar mais proximo com mais oportunidade. Voltei pra tentar de novo, e com a abordagem correta dessa vez.

Eu ainda estava organizando as coisas, uma rotina puxadissima, e veio a pandemia, que nos atrasou a todos.